O que é o Pobre de Direita?
Desde que Tim Maia declarou que no Brasil "Puta se apaixona, traficante se vicia e o pobre é de direita", durante a época da Ditadura Militar (1964-1985), esta expressão que se refere ao Pobre de Direita entrou no glossário das pérolas do que é ser o brasileiro.
Não! Não estou contrariando Tim Maia. Pelo contrário, assino abaixo da frase e gostaria de eu, se tivesse consciência e fosse um pouco mais velho e famoso na época, tivesse dito isto. Este gênio da música brasileira acertou no alvo. Mas incomodou, principalmente, a quem se identificou ou, hoje, é identificado pela expressão.
Em primeiro lugar, não deveríamos ter, num país como o nosso, este indivíduo. O Pobre de direita pode ser caracterizado por algumas situações. Um exemplo: O pensamento do pobre de direita é, geralmente, marcado pelo tom de elite (que ele não faz parte) carrega. Recebe, geralmente, um salário mediano, mas se comporta como o dono da empresa em que trabalha. Aliás, geralmente, trata o dono da empresa como se fosse membro da família. Nunca irá, sequer, saber onde o seu patrão mora. Porém, quando descobre, passa na frente da residência com o seu carro financiado em 120 meses, sem entrada e com parcelas em atraso, e aponta para quem estiver com ele no carro que ali, naquele local, mora o seu patrão. E o faz com orgulho.
Outro exemplo de característica do pobre de direita: pode estar morrendo, com problemas de saúde, mas vai ao trabalho, mostrar que está presente! Mas, se algum membro de sua família estiver doente e falta na escola ou no trabalho, recrimina e se utiliza ele próprio de exemplo! As leis trabalhistas permitem que se falte, mediante atestado médico, sem desconto em folha de pagamento (pelo menos, até essa data, esse direito não foi excluído delas), mas, para ele, isso é uma bobagem, pois prejudica o patrão.
Fica feliz o pobre de direita com aqueles presentinhos patéticos que as empresas dão em épocas festivas. E, quando o presente fica cada vez menos frequente, defende a empresa, dizendo que é época de crise e que todos deveriam se colocar no lugar do patrão que está passando necessidades, mas não esquece dos funcionários.
É um raciocínio estranho, se é que podemos chamar de raciocínio. Na verdade, a formação do pobre de direita vem de longa data em sua vida. Quando estudava, como não entendia as coisas difíceis de ler e fazer contas, dormia nas aulas, colava nas provas e foi se formando aos trancos e barrancos. Sou professor há muito tempo e vi muitos alunos assim. Invariavelmente, de alunos medíocres, tornaram-se pessoas medíocres e profissionais, logicamente, medíocres. Esta mediocridade não o fez entender que, ao longo dos tempos, os trabalhadores conquistaram direitos, mulheres (que ele tanto odeia, exceto as de propaganda de cerveja, as prostitutas dos bordéis que frequenta ou as menores de idade que ele baba nas ruas, gracejando com cantadas) passaram a ter voz política e que estas lutas sociais lhe concederam benefícios! O de estudar em escolas e universidades públicas (para se graduar e ter condições de prosperar), de trabalhar com garantias e leis trabalhistas e poder votar e escolher seus representantes.
Mas, o pobre de direita odeia o pobre! Por ter uma formação deficitária, por sua própria responsabilidade (que ele não admite), não entende que quem lhe concedeu estes direitos foi a luta social da esquerda militante, que ele tanto odeia! Foi da esquerda ou suas ideias que as leis trabalhistas tiveram origem, mulheres conquistando seu espaço na sociedade e cidadania, racismo combatido, entre outras coisas. Mas, para ele, são bobagens que ele conseguiria conviver muito bem sem. E apoia decisões daqueles que, politicamente, o prejudicam! É o boi amigo do açougueiro!
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