Intolerância Religiosa é algo político?
Brasil, 27 de maio de 2022
O que tem a ver política com religião? E por que intolerância religiosa pode ser considerado algo político? A resposta para a primeira pergunta aqui feita deveria ser um efusivo "nada". Infelizmente não é bem assim.
Desde as origens das primeiras civilizações, a religião sempre esteve atrelada ao poder. Sempre serviu como instrumento para as classes dominantes se consolidarem no comando dos menos favorecidos. Mitos, lendas designavam aqueles que deveriam comandar. E, quando uma civilização conquistava a outra, por mais que, por vezes, ocorressem fusão entre as religiões (dominada e dominante), este sincretismo corroborava como instrumento de dominação do novo comandante.
É a tradicional formação de rebanho. Lógico que a máquina religiosa mexe com a fé. E a fé é algo que não existe, do ponto de vista material. Aí entra o jogo dos sacerdotes em convencer ao seu rebanho da necessidade espiritual da crença em um ou mais deuses. E, lógico, o jogo do que é bom e do que é mal. A noção do certo e do errado. E, geralmente, o certo está no conjunto de leis aplicado a todos, disfarçado no aspecto moral em crença religiosa, mas punitivo nos setores jurídicos de cada povo.
Parece complexo, mas é muito simples isto que estou lhe relatando, caro leitor. Quando os primeiros pensadores começaram a questionar esta estrutura de poder, vinculada a religião, desmistificando deuses, eram perseguidos pelas autoridades religiosas e políticas. Lembrar do caso de Sócrates na pólis de Atenas, durante a Antiguidade. O detalhe é que tivemos diversos "Sócrates" ao longo da história da humanidade. E, invariavelmente, acabaram sendo perseguidos da mesma maneira.
Dando um longo salto no tempo, já com o cristianismo consolidado, a estrutura de poder oriunda do Papado, tinha a Santa Inquisição, um tribunal para combater os opositores da Igreja Católica. Esta instituição matou, expropriou terras e riquezas em nome da fé. Em nome de uma crença que alguns não admitiam como sendo a sua ou não aceitavam as imposições. Até mesmo aqueles que não eram adeptos do cristianismo não eram respeitados em sua opção religiosa, como é o caso do judaísmo e seus seguidores. Eram igualmente punidos, como o eram católicos desviados da fé que a Igreja impunha como sendo a correta. Curiosamente, boa parte dos ensinamentos da Igreja na época inquisitorial (do século XII em diante) era contraditória ao que Jesus havia pregado enquanto entre nós caminhava. Isto comprova o fato de que a fé se molda ao formato de poder que quer impor.
Não é diferente do momento atual em que estamos. Hoje a intolerância religiosa está mais presente do que nunca. Há uma pluralidade de religiões, mas mesmo entre aquelas que não são opção da maioria da população, percebe-se a disputa de espaço (leia-se fiéis) e a tentativa de se manter em grupos que tenham o poder. No Brasil de hoje, temos uma bancada evangélica no Congresso Nacional. Altamente corrupta, defensora de corruptos. Sujeito se lança como pastor, sem às vezes ter domínio sequer daquilo que professa como fé, e logo está como candidato a vereador, deputado estadual ou federal. Um processo de ascensão ao poder. Ascensão social também, porque grande parte se lança na corrupção política e vive das maracutaias que a política brasileira oferece.
Não podemos esquecer do caso dos pastores que culminou na queda do também pastor ministro da educação. Em 2022, ano em que escrevo este texto, barras de ouro, bíblias impressas ou dinheiro vivo eram pedidos de pastores para liberar verbas para prefeituras. Tudo em nome do Senhor, claro. Senhor da corrupção. Senhor do desvio de dinheiro público. Senhor das obras superfaturadas. Senhor do meu carrão na garagem.
Anos atrás, enquanto estava ministrando uma aula de corrupção, exibi um vídeo de um deputado federal, também pastor, pedindo que os fiéis de sua igreja pagassem o dízimo na máquininha de cartão. Poderia ser no crédito e parcelado também. Onde está a fé? Sei que prédios não se constróem por vontade divina. Sei que templos não são erguidos porque Deus assim o quis. Mas algumas igrejas neopentecostais são prédios luxuosíssimos, fruto de ostentação e extorsão dos fiéis. Não que a Igreja Católica seja diferente, haja visto os templos construídos pelo mundo todo, ostentando ouro e outras riquezas.
Ah... se o Cristo visse o que suas palavras viraram. Justo ele que pregava na montanha, no mercado, nos bordéis. Não há lugar para professar a fé e, em nenhum momento, ele pediu que fosse em templos adornados em ouro. Muito pelo contrário! Este era o padrão das civilizações pagãs (termo do cristão para diminuir a importância das religiões politeístas). Lembrem-se, vocês, cristãos, de quando Jesus invadiu o Templo. O que ele fez? Reflitam!
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