Urnas Eletrônicas

 Brasil, 26 de maio de 2022


Desde que foi proclamada a República no Brasil, em 15 de novembro de 1889, vive-se uma situação de confusão democrática.

O Golpe republicano, apoiado por alas militares e cafeicultores descontentes com a abolição gradativa da escravidão, deixou dúvidas a respeito de quem poderia se tornar cidadão. Afinal de contas, o pretexto de encerrar a monarquia era de se implantar um regime "democrático"! Mas que democracia deveríamos ter? Era necessário se determinar quem teria direito de cidadania. 

Sim! Você, desinteressado em política que aqui chegou e está lendo, deve ser informado de que nem todos os habitantes de nosso país são considerados cidadãos. A regra do jogo da cidadania excluía analfabetos, mulheres, militares de baixa patente, mendigos e outros. Lendo-se nas entrelinhas, negros ex-escravos estavam excluídos do direito de cidadania em sua grande maioria, por serem analfabetos, principalmente.

Mas isso não era o mais grave! Com a falácia de se manter a "democracia" deveríamos ter eleições. O número de eleitores era ridiculamente baixo. Além disso, devo lembrar a você, caro leitor, das dimensões continentais de nosso país. Isto, por si só, dificultava qualquer processo eleitoral. Isto abriu uma brecha interessante para os antigos donos de escravos: fraudar as eleições. Com a inexistência de justiça eleitoral e com a classe política sendo farinha do mesmo saco desde a época do império, estes senhores de terras deram um jeito de continuar o jogo que já faziam desde antes da República.

Esta situação deixou a maioria de nossa população na miséria. Mas não tinha problema para os poderosos. Eles mantinham o controle político em suas mãos. O mandonismo, a violência, o voto de cabresto eram expressões utilizadas por eles mesmos durante os períodos eleitorais, caracterizando uma república controlada por oligarquias. Os ricos governando em benefício dos ricos. Até agora você, que chegou até aqui, mesmo não se interessando ou conhecendo política, percebe a mudança que do início do século passado para os dias atuais ocorreu.

No entanto, saltando alguns anos a frente no tempo, depois que a ditadura militar acabou em 1985, uma nova Constituição foi promulgada em 1988. Ela incluiu diversos atores no cenário da cidadania. Analfabetos podem votar. Isto, num país que nunca teve um histórico de se investir em educação e nos mais humildes, é um enorme progresso na democracia.

Naquela época (1988), este que aqui vos escreve, tinha 14 anos. E pensava eu numa possibilidade negativa: seriam estes analfabetos o novo curral eleitoral? Seriam manipuladas as eleições? Pois bem! Em 1994 ocorreram eleições presidenciais já com as urnas eletrônicas (onde moro, em Curitiba, já tinha ocorrido essa experiência nas eleições municipais em alguns locais). E, para meu espanto, deu resultado. De 1994 até 2018, as urnas eram inquestionáveis. Nunca mais tivemos problemas com sumiço de urnas (como ocorreu em 1982 no Rio de Janeiro) ou outras diversas situações para se tentar fraudar o processo eleitoral.

Mas, recentemente, o vencedor das eleições presidenciais encampou uma pauta, na ausência de situações mais preocupantes a um presidente como política econômica, pandemia, agravamento do desemprego ou fome da população: a de que as urnas eletrônicas eram fraudáveis. 

Conhece-se este sujeito, um deputado federal por 28 anos no Congresso, que não abria a boca para nada que prestasse. Limitava-se a dar declarações polêmicas, como saudosista que é da época da Ditadura Militar. O tenente tornado capitão, se são as urnas fraudáveis, foi um dos beneficiários disso ao longo de todo esse tempo. Se já desconfiava disso (já que provas não existem), por que nunca levantou isto em plenário enquanto era deputado federal? Mas isso não é relevante. 

Este tipo de tentativa de desestabilizar as instituições e provocar a dúvida e o caos num país são práticas que já são muito conhecidas pelos historiadores, filósofos, sociólogos. Fascistas foram os criadores deste tipo de situação. Gerar uma dúvida, o caos, sem evidências ou provas. Provocar a desordem e se colocarem como solução imediata para o problema, sempre por meio do autoritarismo. Não é só mau-caratismo! É um projeto de poder. E este tipo de projeto é facilmente implantado em meio a uma população iletrada e que tem desgosto, desapreço por política e políticos.

Por enquanto, é só. Deixe seu comentário.

Comentários

  1. Ótimo texto Julio! Tenho uma mistura de apreensão e otimismo com relação ao que vai acontecer logo após as eleições.

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    1. Obrigado Pablo. Vou manter, ao menos, publicações regulares. Conto com o apoio do amigo para continuar nessa toada.

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